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ENTREVISTA DE LUÍS CÉSAR EBRAICO AO JORNAL “HOJE EM DIA”, out/2004
Hoje em Dia: Seu trabalho defende a idéia de que alguns conceitos de Psicanálise deveriam ser conhecidos e manejados pelo público. Mas os psicanalistas, com seus guetos e instituições fechadíssimas, suas poses e caras de mistério e suas conversas que ninguém entende contribuem muito para que a gente, pobre mortal, não saiba nada de Psicanálise. Concorda? Aliás, por que os psicanalistas, na sua maioria, complicam tanto a Psicanálise? É incompetência ou necessidade de manter um determinado poder? L.C.E.: Há conhecimentos que, difundidos, não geram grandes alterações nas relações de poder e em pouco tempo são largamente difundidos: foi assim com a descoberta, no século XIX, de que o escorbuto era produzido pela falta de vitamina C. Já outros, se difundidos, ameaçam aquelas relações. No fim do século XVIII, em Viena, uma senhora bem nascida e bem casada já tivera dois filhos, mas fora incapaz de os amamentar. Nasce um terceiro. Mais uma vez, não há leite. Alertam a família: há, em nossa cidade, um médico que vem fazendo desaparecer sintomas como ninguém mais. Era Freud. Chamam-no. Após duas sessões, jorra o leite como de um chafariz. Pouco depois, o “salvador” comenta: “Não entendo por que aquela família nunca mais falou comigo!” Sob hipnose, ele havia feito a paciente trazer à tona a memória recalcada de haver cedido às pressões de sua família para que se casasse, não com o homem de seus sonhos, mas com outro, de situação financeira superior. Sua incapacidade de amamentar não era mais que a expressão indireta de sua revolta, até então reprimida, contra se haver submetido. O fato de a paciente haver recuperado o contato perdido com essa revolta trouxe o leite, mas tornou a vida dos que a haviam submetido um inferno. E Freud não entendeu porque a família não quis mais falar com ele! É a imensa série de interesses que podem ser perturbados por uma correta vulgarização dos conhecimentos psicanalíticos que impede que essa vulgarização ocorra. Hoje em Dia: Será que a gente pode dizer que você está "corrigindo" a Psicanálise de Freud? Ou seria "simplificando"? Poderia ser "complementando"? "Atualizando"? L.C.E.: Freud talvez seja o autor que mais gritantemente representa o conflito entre “mudar” ou “conservar” que caracteriza, com ritmo e intensidade jamais vistos, o ambiente cultural do século XIX. As técnicas que desenvolveu para facilitar a liberdade de expressão pessoal são um marco na existência humana; já algumas opiniões suas – por exemplo, sobre a natureza da feminilidade – não passam de cansativas e tolas repetições de preconceitos fadados a desaparecer. Dizer que pretendo expurgar a obra freudiana de seus conteúdos reacionários me faria sentir bem compreendido.
Hoje em Dia: É impressão minha ou, em alguns momentos, você discorda de alguns termos usados por Freud? Pode dar exemplo de termos com os quais não concorda? L.C.E.: Minha essencial discordância com Freud relativamente aos termos que emprega é a frouxidão com que os emprega: usa-os freqüentemente com diferentes significados sem indicar que o está fazendo, o que dificulta extremamente uma adequada compreensão da obra. Quanto a discordâncias sobre o emprego específico de determinados termos, são menos relevantes e por demais técnicas para que valha cansar um público leigo com elas.
Hoje em Dia: Quando você explica sobre traumas e dá o exemplo de uma paciente que sofreu abuso sexual na infância, me lembro de uma coisa: tenho duas amigas, duas primas que, quando crianças, era assediadas por um tio tarado. Ambas já passam dos 50 anos e uma delas sofre até hoje as consequências disso. A outra mal se lembra das investidas do tal tio. O que a gente pode concluir disso? Os traumas "caem" de forma diferente nas pessoas? Para algumas um acontecimento é mais traumático do que para outras? Em tempo: ambas contaram para suas mães na época. Para que serve, então, a palavra? Não é tão fácil assim entender o que é um trauma. L.C.E.: Tive um paciente que, quando se deitava no divã, sentia-se compelido a colocar sua mão direita sobre a testa. Ao longo da análise, recuperou a lembrança de que esse era o gesto que fazia para se defender das pancadas que, quando criança, sua mãe lhe aplicava sobre a cabeça e, a partir dali, recuperou o controle sobre sua mão. Antes, estava sob o domínio de um trauma, ou seja, de uma “lembrança não lembrada” de forte carga emocional. Como a presença de trauma implica que a pessoa não se sentiu devidamente escutada – em meu livro, esclareço o que significa isso – quando tentou comunicar a outrem as emoções que viveu quando da ocorrência do evento traumático, fica a suspeita de que a mãe de uma de suas primas – a da que se livrou do trauma – prestou-lhe devida escuta e a da outra – a que continuou vítima dele – não.
Hoje em Dia: Por que você diz que esta literatura de auto-ajuda baseada no pensamento positivo é "um verdadeiro dinossauro"? Por que dinossauro? L.C.E.: Qualquer orientação psicológica que não tenha absorvido e integrado as descobertas essenciais da Psicanálise, é absolutamente “jurássica”. E o essencial dessas descobertas é a demonstração de que impedir o acesso à consciência de sentimentos “negativos” é a melhor maneira de se gerar trauma e, portanto, neurose. Naturalmente, para que o acesso à consciência desses pensamentos tenha efeito benéfico e, não, maléfico, certas regras devem ser obedecidas e é sobre elas que reza meu livro. A Psicologia do Pensamento Positivo está alimentando a população com o lixo científico que dominava o pensamento ocidental anteriormente ao aparecimento da Psicanálise. Só é possível compreender a sobrevivência desse dinossauro teórico, se levarmos em conta as resistências que se opõem à perestroika ( = re-estruturação) político-cultural que seria provocada pela adequada difusão da glasnost ( = transparência ) proposta pela Psicanálise.
Hoje em Dia: Alguém já disse que seu livro é de “auto-ajuda”. O que você acha? L.C.E.: Um dos principais objetivos de meu livro é expor à população em geral por que, do ponto de vista científico, a chamada Psicologia do Pensamento Positivo é um verdadeiro câncer cultural, responsável por eventos deploráveis como, por exemplo, o retratado por Michael Moore em Tiros em Columbine, evento que também enfoco em meu livro. Ocorre que a chamada literatura de auto-ajuda está tão contaminada por essa Psicologia do Faz-de-Conta, que, se classificam meu trabalho como de auto-ajuda, há o risco de que o confundam exatamente com o tipo de abordagem que ele pretende criticar.
Hoje em Dia: Muitos termos da Psicanálise foram banalizados e caíram “na boca do povo”. Um, particularmente, me chamou atenção no seu livro, qual seja, “repressão”. Segundo você, repressão significa quase o contrário do que a gente acha que é. Por que isso aconteceu? L.C.E.: A maior de todas as falhas de Freud foi, ao afirmar que “repressão causa neurose”, não enfatizar que, nessa afirmação, o termo “repressão” deve ser entendido só e apenasmente como a impossibilidade de colocarmos em palavras o que se passa dentro de nós e, nunca, como a impossibilidade de fazermos o que queremos. A lamentável confusão que se seguiu entre os dois sentidos em que pode ser empregado o termo “repressão” deu azo, em meados do século passado, ao nascimento de pedagogias que, em vez de facultar às crianças uma ampla possibilidade de se expressarem verbalmente, pretenderam facultar-lhes uma ilimitada possibilidade de fazer. O resultado dessas pedagogias supostamente psicanalíticas foi catastrófico, para essas crianças e para a credibilidade das descobertas freudianas.
Hoje em Dia: Você fala também em “cultura de bem-estar”, que, segundo diz, seria “um processo inevitável para a humanidade”. Mas Freud não fala exatamente em um “mal-estar na civilização” em sua obra? L.C.E.: O que afirmo em meu livro é que “se mantivermos o atual ritmo de crescimento da expectativa de vida”, o império de uma “cultura de bem-estar” é inevitável, com a salvaguarda de que, se, por obra de alguma catástrofe planetária, aquele índice voltar a níveis anteriores aos do “divisor-de-águas antropológico” marcado pelo século XIX, o regresso a uma “cultura de sobrevivência” é inevitável. Quanto a Freud, esse é um dos pontos em que se perdeu relativamente às diferentes conseqüências que, para o ser humano, tem o não poder falar e o não poder fazer. Não há espaço para que eu detalhe isso. Não custa lembrar, entretanto, que, embora um grande psicólogo, o criador da Psicanálise foi um péssimo antropólogo.
Hoje em Dia: Você dá o nome de Loganálise ao seu conjunto de idéias. O que é isso? O termo “logo” tem a ver com “jogo”, não tem? L.C.E.: Não, não tem. Tem, sim, íntima conexão com a idéia de “expressão verbal”, por isso pretendi, com o nome Loganálise, deixar claro, na construção de uma Psicanálise expurgada, que o problema da neurose gira primariamente em torno da questão do falar, não obstante dessa questão derivem, mas só secundariamente, vários problemas relativos ao fazer.
Hoje em Dia: Eu gostaria muito de entender a palavra cura. Não é esta a idéia da Psicanálise? Mas cura como? L.C.E.: “Frio” e “calor” são extremos de um contínuo em que determinar onde acaba um e começa outro é algo totalmente subjetivo; assim ocorre com “saúde” e “doença”. No primeiro daqueles contínuos, “maior temperatura” corresponde a “mais calor” e “menor temperatura”, a “mais frio”; no segundo, “maior funcionalidade” – entendendo-se por “funcional” tudo aquilo que é favorável à sobrevivência – corresponde a “mais saúde” e “menor funcionalidade”, a “mais doença”. Como funcionalidade e prazer estão intimamente vinculados, vale deixar claro que, no que diz respeito a saúde psicológica, ao deslocar-se em direção à saúde, o indivíduo se desloca em direção a um estado em que é capaz de orientar seu próprio comportamento de forma a obter, dentro das condições apresentadas por seu meio-ambiente, o máximo possível de prazer e funcionalidade. Como ajudar um indivíduo a fazer esse deslocamento? Psicanálise e Loganálise só se ocupam de uma – embora, possivelmente, a mais relevante –das inúmeras possíveis formas de fornecer essa ajuda: ensinar o indivíduo a empregar sua fala de uma forma que dissolve os traumas que o paralisam, libertando-o de fixações que obstaculizam seu prazer e sua funcionalidade. Isso, lamentavelmente, só vem sendo feito de forma adequada para uma população de elite, dentro de consultórios. Meu livro traz uma infinidade de dados demonstrativos de que essa restrição é absurda e desnecessária, devendo – e podendo – ser superada, de forma a permitir que a população como um todo tenha acesso a um saber que, por razões políticas, lhe tem sido negado.
Hoje em Dia: O que exatamente você propõe com o “trabalho do leigo”? Penso que os psicanalistas devem te odiar por esta proposta, não? L.C.E.: Quanto ao “trabalho do leigo”, o que proponho é que, como já foi feito no que diz respeito à doença física, se reconheça o papel indispensável do cidadão comum no que diz respeito à promoção da saúde psíquica. Quanto aos psicanalistas, só imagino que irei provocar ódio nos preguiçosos, assustados com a perspectiva de ter que pensar. Quanto aos que ainda mantêm viva sua capacidade crítica, o que espero é que, ou não achem que meu trabalho merece atenção, recolhendo-se, portanto, a um devido e respeitoso silêncio, ou, caso contrário, que se vejam estimulados a apontar meus possíveis enganos e a rever os seus. E, nesse último caso, aquela a sair ganhando, indubitavelmente, vai ser a Psicanálise.
Hoje em Dia: Você diz, no início do livro, que “uma nova conversa é capaz de promover a saúde mental de quem participa dela”. Pode explicar-me isso? L.C.E.: Há dezenas de tipos de doença mental: oligofrenias, demências, psicoses, psicopatias, neuroses etc.. Apenas no que diz respeito à neurose há suficiente evidência científica demonstrando que um elemento fundamental de sua etiologia corresponde à maneira segundo a qual se desenvolve a comunicação verbal. Seria, naturalmente, o ápice do ridículo tentar tratar loganalicamente um paciente demenciado. Por outro lado, sendo a neurose a mais freqüente de todos os distúrbios psicológicos e sendo causada por determinadas falhas nos processos habituais de comunicação, esclarecer a população sobre isso, criando uma nova maneira de conversar, iria produzir o indispensável engajamento do leigo na promoção da saúde psicológica.
Hoje em Dia: Resuma, por favor, o motivo que o levou a dar o nome de “Nova Conversa” ao seu livro? L.C.E.: Esse título é uma homenagem a Theodore Zeldin, pensador inglês que, não sendo profissional da saúde, revela em seu livro rara percepção das principais questões que nossa era globalizada terá que enfrentar e para as quais meu livro propõe algumas soluções. Como afirma o autor: “é chegada a hora de uma Nova Conversa”.
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